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MINHA HISTÓRIA NO RPG

 

Antes que pensem nisso, não, não é coisa de gente convencida. A idéia é só falar um pouco do rolou pela grande São Paulo em termos de RPG nos últimos anos e do que eu penso sobre o RPG. Afinal, muita gente está começando agora...

Bem, pra início de conversa, eu me considero da segunda geração do RPG no Brasil.
A primeira geração é a daqueles que conheceram o RPG através de amigos ou de viagens internacionais, jogando com livros importados. Obviamente foram eles que permitiram o surgimento da segunda geração, ensinado a outros ou abrindo lojas especializadas.
A segunda geração é daqueles que tiveram seu contato inicial com o RPG através do primeiro jogo traduzido no Brasil, o GURPS publicado aqui pela Devir Livraria de São Paulo/SP, que foi durante algum tempo a única opção em português para quem queria começar.
A terceira geração (ou geração atual) são aqueles que tiveram mais opções de escolha em português e encontavam nas bancas revistas sobre o assunto (Dragão Brasil, por exemplo). Estes não precisam ficar explicando pra todo mundo o que é RPG, pois ele já virou assunto de reportagem em jornais, revistas e na TV.

Você já percebeu que para alguém da primeira ou da segunda gerações ser apresentado ao RPG era coisa do acaso. E comigo não foi diferente.

Em 1991, meu irmão decidiu fazer um trabalho de feira de ciências sobre revistas em quadrinhos (jeito fácil de ganhar nota, hein?). Indicaram pra ele uma tal de Livraria Devir que era especializada em quadrinhos nacionais e importados. O dono da Livraria além de emprestar os gibis (2 caixas!) perguntou se queríamos levar livros de RPG para o stand. Bem, nós não levamos (afinal nem sabíamos o que era aquilo!) mas ficamos curiosos sobre o assunto.

No início de 92, nós voltamos a Devir, agora para conhecer esse tal de RPG. Para nossa sorte, havia um funcionário da livraria mestrando para iniciantes. Lá estávamos nós (eu com 17 e meu irmão com 14 anos) cercados de pivetes de 11-12 anos, com planilhas de GURPS nas mãos. Depois de uma explicação nas coxas de como funcionavam as regras, começou o jogo. Morremos todos no primeiro encontro (acho que a aventura durou uns 30 minutos). E por incrível que pareça eu adorei aquilo! Tudo bem, que a aventura em si foi um lixo, mas foi suficiente para explicar o que era RPG.

Daí eu comprei o livro básico de GURPS, lemos e adoramos. Só tinha um problema: não tínhamos com quem jogar! Só havia uma solução: eu teria de ler todas as regras junto com meu irmão e nós teríamos de ensinar alguns amigos para que eles jogassem conosco.

Chamei alguns amigos do colégio e a maioria gostou. Começamos a jogar uma ou duas vezes por mês. Revezávamos entre as casas daqueles cujos pais tinham saco de nos aguentar nos domingos (que elegemos "o dia do RPG"), e nunca tivemos problemas com eles em relação ao RPG. As vezes, atrapalhavamos a rotina deles mas nunca ouvi nenhuma crítica ao jogo em si. Mesmo que não entendessem direito o estávamos fazendo ficava claro que aquilo não era coisa de maluco nem de que faria mal a alguém.

Mantivemos essa rotina por mais de três anos. Alguns por um motivo ou outro pararam de jogar, mas outros apareceram. 90% das vezes que mestrava era eu ou meu irmão. Depois a reta final da faculdade e principalmente o trabalho foram diminuindo a frequência dos jogos. Hoje só jogo de vez em quando, geralmente em lojas especializadas e em convenções. Além disso, meu tempo para o RPG passou a ser dividido com o Battletech, ao qual hoje me dedico mais do que ao RPG.

De qualquer maneira, hoje eu tenho bem claro sobre o RPG uma coisa que pode contrariar a muitos amantes desse jogo fantástico. Definitivamente, o RPG é uma diversão para poucos. Muita gente se esforça em divulgar o RPG, outros reclamar que pouca gente joga, deixando os livros caros e difíceis de achar. Eu estou convencido que sempre será assim.

Devo ter ensinado mais de uma centena de pessoas a jogar RPG até hoje. Trabalhei inclusive para uma escola na região do ABC paulista, ensinando o jogo em aventuras ambientadas em momentos históricos sob orientação dos professores de História da escola. Foi uma experiência muito gratificante e tenho certeza que alguns jogam até hoje graças àquelas aventuras na Grécia Antiga e na Independência Norte-Americana.

Relembrando das pessoas que ensinei posso afirmar que a maioria das pessoas gosta do RPG no primeiro contato com o jogo, e apenas uns 20% mostram aversão ao jogo. Isso quando acontece é devido a dificuldade que algumas pessoas tem de participar de uma equipe. O RPG exige muita participação do jogador, e quem optar por ficar "só olhando" geralmente não gosta. Outros tem dificuldade de se concentrar no jogo (libertar a imaginação e se envolver), acabando por se dispersar.

Mas daqueles 80% que gostaram do jogo, nem metade estaria disposta a jogar, digamos, na semana seguinte se fosse convidada.
Porque?
RPG é um jogo que consome uma grande quantidade do que há de mais escasso no mundo atual: TEMPO. Portanto, pela minha experiência, pouco mais da metade das pessoas com quem tive contato que gostou do jogo não estava disposta a jogar sempre, e nunca se tornaria um consumidor de livros, ou seria vista em convenções ou lojas especializadas.
É importante notar que a maioria das pessoas para o qual eu mestrei eram estudantes de razoável situação financeira, que não trabalhavam e tinham totais condições de comprar os livros (com a mesada geralmente). Ou seja, é muito difícil o acesso ao RPG daqueles que tem dificuldades financeiras ou que trabalham (a gigantesca maioria da população).

Mas tudo bem, ainda temos uns 30% da nossa pequena "amostra estatística". Mas a verdade é que poucas pessoas jogam RPG. Mesmo nos EUA, um país consumista e aonde surgiu o RPG, nem 10% dos jovens jogam RPG regularmente, e a única grande empresa que publicava RPG, a TSR, foi comprada por uma empresa de CardGames (nada contra os CardGames, por favor).

A explicação é de que para cada "mestre-típico" existem pelo menos 10 "jogadores-típicos". O "mestre-típico" é aquele que compra os livros, conhece as regras e quer mestrar (mas participa como jogador também). O "jogador-típico" é aquele que aprendeu as regras com alguém ou leu um livro emprestado apenas para jogar, nunca o suficiente para mestrar uma partida.
Mesmo gostando do jogo, mestrar é uma tarefa trabalhosa. Não só porque se deve um conhecimento mínimo das regras, mas também porque cabe ao mestre criar e preparar as aventuras, algo que exige dedicação e criatividade.

Isso nos deixa com um grupo pequeno de pessoas. Isso não surpreende, afinal vivemos num mundo altamente segmentado. Assim como existem pessoas que se interessam por RPG, existem pessoas que gostam de livros esotéricos, aquarismo, esportes náuticos, etc.

Se você está começando a jogar agora não se surpreenda com a dificuldade em achar os livros ou outras pessoas com quem jogar. Mas não desista, são poucos e bons. E se você deseja fazer parte desse grupo de pessoas, você está de parabéns!

O RPG é ao meu ver o melhor entretenimento possível, ainda mais num mundo onde tudo é cada vez mais automatizado e desumano.
Aliás, o que acho mais fantástico no RPG é que ele podia ter surgido em qualquer época (afinal só depende da imaginação), mas surgiu junto com a revolução da informática, concorrendo com a TV, os video games, o cinema e toda gama de diversões que a tecnologia pode oferecer.
E dá de dez a zero!

 

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