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"HI-LO MIX"
MAXIMIZANDO O PODER AÉREO

 

Quantidade ou qualidade? Estes parecem atributos mutuamente excludentes em um caça moderno. Uma aeronave capaz de enfrentar, com razoável segurança, qualquer ameaça atual ou em um futuro imediato, será sem sombra de dúvida extremamente cara e complexa. Por outro lado, aparelhos mais simples podem ser produzidos em maiores quantidades, mas podem ser abatidos um a um por caças mais capazes ou defesas antiaéreas bem equipadas. A evolução da aviação militar nos mostrou a superioridade de uma combinação de caças mais e menos sofisticados, com quantidades maiores do segundo tipo, que podemos chamar de "hi-lo mix".

O desenvolvimento de caças nos EUA, após a guerra do Vietnam é nada mais que uma busca desta solução. Primeiro vieram os supercaças, F-14 e F-15. O primeiro busca o máximo em interceptação de múltiplos alvos a longas distâncias. O segundo era uma resposta ao "supercaça" soviético MIG-25, que se descobriria depois ter um desempenho bem aquém do imaginado. Ambos caças superavam com larga margem seu possíveis inimigos com combinações "radar-míssel" muito superiores. A resposta soviética era a produção em larga escala de caças simples e pouco flexíveis como o MIG-21 e o MIG-23. Para os soviéticos um grande número de baixas era claramente aceitável - o oposto do ponto de vista americano que atribui alto valor ao seu material humano.
Os milhares de caças que saiam das fábricas soviéticas mostrou aos norte-americanos a necessidade de caças mais baratos que diminuissem a desvantagem numérica da OTAN frente ao Pacto de Varsóvia. Disto sugiram os relativamente pequenos F-16 e F-18, que fazendo uso da mais avançada tecnologia da época eram superiores aos seus adversários, deixando agora o Pacto de Varsóvia em indiscutível desvantagem.

A resposta sovética foi uma nova geração de caças, combinando o Su-27 (hi) e o MIG-29 (low). Estes são maiores que seus equivalentes ocidentais (F-15 e F-16), mas sem fugir do pragmatismo e simplicidade dos projetos soviéticos, principalmente com o MIG-29. Estas mesmas características impediram uma maior padronização dos meios aéreos com a presença de aparelhos como Su-25 e MIG-31. A presença do Su-25, em especial, mostra a deficiência (ou desinteresse) dos soviéticos em produzir caças multifuncionais. Sendo a capacidade do MIG-29 na função de ataque muito limitada, ao contrário do F-16, cabem ao Su-25 muitas das funções de ataque.

Mig-29: A solucão soviética para enfrentar os F-16 e F-15 da USAF. Apesar de ser um soberbo caça de superioridade aérea, é limitado na função de ataque.

Para as funções de ataque também vale o conceito de "hi-low mix", e até de forma mais acentuada. De um lado existem as funções de destruição de alvos estratégicos bem defendidos (como aeroportos e centrais de controle e comunicação) exigindo aeronaves sofisticadas e de grande autonomia. De outro vem funções de apoio de fogo, interdição e ataque a alvos secundários. Os norte americanos se beneficiaram da multifuncionalidade de seus caças, utilizando uma variante do F-15 (o biplace F-15E) e o F-16 padrão. Do lado soviético vieram duas aeronaves especialmente para ataque, o Su-24 e o Su-25. Só recentemente os russos desenvolveram uma versão de ataque biplace do Su-27.

Apesar dos exemplos das superpotências, muitos países optaram por um caminho diferenciado utilizando uma aeronave para atender a todas as suas necessidades. Os exemplos mais claros dessa filosofia são Suécia e França. Ambos sustentam uma indústria militar respeitável e sempre que possível adquirem aeronaves nacionais para suas forças armadas. Caças multifuncionais acabam se impondo mesmo por uma questão de escala (principalmente a Suécia que teve pouco sucesso com exportações) e mesmo assim não se consegue fugir de custo unitários elevados. Ignorando-se os benefícios econômicos (incentivo a indústria nacional e as exportações), do ponto de vista estritamente militar existe uma perda de poder em apostar em caças multifuncionais para cumprir todo o espectro de missões possíveis. O Mirage 2000, por exemplo, se assemelha ao F-16 em tamanho e desempenho, mas recebeu radares e misseis mais sofisticados para executar missões de interceptação e ataque que o F-16 não se propõe a realizar. É evidente que o Mirage 2000 se ressente de falta de autonomia para missões de patrulha mais longas ou penetrações de baixa altitude, enquanto em funções de ataque como apoio aproximado, muitas de suas características simplesmente não influem na execução da missão, como a razão empuxo/peso, radar "look-down/shoot-down", etc. O Rafale só tende a agravar o problema, por ser muito mais caro. Isso leva a França a manter em operação seus Jaguars, mas quando estes forem desativados, não haverá substituto francês para entrar em produção.

Mirage 2000: Equipado com misseis de médio alcance é um meio termo entre o F-15 e as primeiras versões do F-16. A opção por um único caça para todas as funções é determinada mais por questões políticas do que militares.

Para forças aéreas menores, como o Brasil, que se preparam para conflitos menos intensos vale o mesmo conceito, mas deve-se avaliar as plataformas adequadas para cada missão. Supercaças como o F-15 ou Su-30 se tornam inacessíveis, seja por impedimentos políticos ou financeiros. Caças menores como o F-16 parecem deficientes nas funções especializadas e são muito caros para atender a todas as funções. A Malásia, entretanto, parece ter encontrado uma saída inteligente. Optou por 8 F-18D (biplace) nas funções de ataque e adquiriu 16 MIG-29 para interceptação. Para funções menos sofisticadas foram adquiridos 18 Hawk 200 equipados com radares APG-66 e com boa capacidade de combate aéreo e ataque ao solo, apoiados por 10 Hawk 100 de treinamento e ataque. A Malásia poderia também ter optado por um número maior de F-16 de segunda mão, mas vantagem numérica não compensaria a vantagem de dispor de um biplace especializado em ataque ou de um interceptador nato (para o qual estariam diponíveis inclusive mísseis de médio alcance). Desta maneira, a Malásia pode desempenhar uma ampla gama de missões de maneira eficiente, aproveitando ao máximo os recursos disponíveis no momento de adquirir as aeronaves, apesar do custo de manutenção de uma força tão heterogênea ser mais alta.

Nesse contexto podemos enquadrar o Brasil que hoje utiliza quatro aeronaves: O Mirage III, o F-5, o AMX e o Xavante. Este último será corretamente substituído pelo ALX, que desempenhará adequadamente funções de ataque e interceptação fazendo o "lo" da equação brasileira. O AMX é a aeronave mais nova em serviço e deverá permanecer em uso por muito tempo. Originalmente concebido para fazer dupla com o Tornado na Força Aérea Italiana, é muito eficiente no ataque ao solo e apoio aproximado, sendo otimizado em vôos a baixas altitudes. Em serviço no Brasil lhe falta raio de ação para algumas missões e um radar multifuncional que já está sendo providenciado, mas mesmo assim acaba por tornar desnecessária outra aeronave de ataque mais sofisticada. O F-5 mesmo que modernizado na sua aviônica, continua sendo inferior a um Mirage 2000 ou F-16. Parece inevitável a aquisição de um pequeno número (12-16) de aeronaves mais modernas, que substituiriam aos Mirage III e se reservariam à função de superioridade aérea. F-16A de segunda mão seriam a opção mais barata para combate aéreo à curta distância, com boa autonomia para patrulhas aéreas em conjunto com os EMB-145 AEW. Os F-5 poderiam receber um upgrade modesto, como um radar APG-66 e HUD, para atuarem como interceptadores.

F-5E: Mesmo modernizado não é páreo para caças mais modernos, mas permanece útil se combinado a outro caça mais sofisticado.

É interessante notar como a mídia nacional vem abordando a questão da substituição de caças no Brasil, apoiando a modernização dos F-5 ou a aquisição de novas aeroanaves. Nos parece, no entanto, que uma combinação das duas opções traz resultados melhores, dentro das mesmas limitações orçamentárias.